23 setembro 2007

 

Espectro comunista


Tom Joad é o protagonista do romance Vinhas da Ira. Publicado em 1939, o livro em poucos meses vendeu milhões de exemplares, em um ano foi feito em filme pelo John Ford, ganhou um Pulitzer e foi aclamado clássico da literatura norte-americana. Joad, trabalhador, saudável e destemido não consegue sobreviver nas terras esgotadas do Oklahoma, varridas pela seca e pelo estupro da cultura intensiva. Com a família e pouco mais, migra para Oeste seduzido pela fértil Califórnia. O solitário sem-terra junta-se a milhares de outros que acampam junto das quintas a pedinchar um emprego incerto. Os patrões negam-lhes salários justos, chantageiam-nos com empréstimos e agridem aqueles que falam da injustiça no meio da abundância.

Joad promete: “Estarei no escuro – estarei em todo o lado. Onde quer que olhes – onde quer que haja uma luta, para que gente com fome possa comer, estarei lá. Onde quer que um polícia agrida um tipo, estarei lá.”

O senso imediato e comum diz-nos que Tom Joad é uma ficção, que representa uma classe, ou uma ideia de classe na escrita de John Steinbeck. Podíamos contrastar Tom Joad, criatura de papel, com as personagens testemunhais no jornalismo e no documentário, as que suam, sangram e morrem. Mas estas não são imunes a ideologia, representam e comunicam identidades fixas: a mãe, o pai, o velho, o novo, o consumidor, o produtor, o votante, o Grande Público. No jornalismo e no documentário raramente nos são oferecidas histórias na confusa primeira pessoa, é edição, moldura e estrutura.

E enquanto na sociedade do espectáculo personagens testemunhais tornam-se mitos, Tom Joad torna-se real. Joad é o combatente proletário que desde 1939 migra por tempos e espaços, que acolhe todas as histórias. É repetidamente evocado, reinterpretado e preenchido. É real e fantásmico...

(The Ghost of Tom Joad, Bruce Springsteen.)

Comments:
os rage against the machine têm uma versão musculada disto. e não se saem nada mal.

http://youtube.com/watch?v=TG6sZUBvOeU
 
ja' tivemos a discussao entre no's (o cabral e' um bocado mellow, e deu voz 'a sua preferencia...)
 
A primeira vez que ouvi a musica ate' foi covered pelos RATM. Mas para efeito "espectral" o Boss sai-se melhor.
 
Mas penso que a versão dos RATM capta melhor a ira da personagem Tom Joad. Na versão deles há mais raiva. Aquela raiva que leva o Tom Joad a odiar de morte a instituição policial que mata o pregador Casey. Aquela raiva que a mãe Joad sente pela pauperização que destroi a sua família e os condena a passar fome e a fugir como se de cães com sarna se tratasse. Nesse aspecto, o Zack de la Rocha encarna melhor esta faceta do romance. Romance que é provavelmente o livro de ficção da minha vida.

Saudações
 
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