02 julho 2007

 

Sicko (2007)


Há documentários que são comentários. São textos onde o narrador se deixa tentar pelo poder ditatorial e projecta-se narcisistamente sobre a peça. Roger and Me, brilhante tanto em comédia como em denúncia, sofria deste peculiar deslize. Aliás, todos os filmes de Michael Moore têm sobre si (tal como os de Woody Allen) a sombra do cineasta. Todos excepto Sicko onde Moore é recolhido no papel de discreto entrevistador. Tomemos esta como a nossa questão: porquê?

Uma interpretação é a memória do cinzento sucesso de Fahrenheit 9/11. Este foi um dos gigantes de bilheteiras no verão pré-eleitoral . Mas enquanto Moore “comentara” Bush como um inepto acidente histórico, o “documento” do resultado eleitoral desmentiu-o. E pelo sucesso e seu reverso Moore foi aclamado como um dos grandes inimigos da América conservadora. Será que Moore agora se escuda de mais infortúnios políticos?

Em Sicko não é só Moore que sai de cena, estão também ausentes os apartes cartonísticos e as suas clássicas visitas aos poderosos para os importunar com questões. O filme tem somente uma classe de protagonistas: os doentes Americanos. É a voz e história sem intermediários de quem morre e vê morrer porque o lucro privado se sobrepôs à saúde pública. Os casos expostos são um rol de horrores. É uma tragedia tão mais grave quando comparada com a saúde publica de vizinhos próximos (Canadá) ou dispares (Cuba).

Moore não se impõe sobre a narrativa porque esta verdade dispensa edição. O motivo da competição e do lucro na provisão da saúde é o de limitar os custos, o acesso dos doentes ao tratamento. Em Portugal, onde alguns olham com ambição para um modelo semi-privado, promove-se o silêncio sobre o debate. Eles sabem bem que só às escondidas se rouba a saúde ao povo.


Comments:
A diferença entre seer médico e carrasco...
 
Aqui também vinha a calhar aquele clip da senhora de um banco a lembrar que o negócio da saúde só era ultrapassado pelo das armas...
 
Que podem encontrar aqui:
http://obitoque.blogspot.com/2007/05/sade.html
 
Mas afinal, é bom ou não? Melhor ou pior do que os anteriores?
 
Gostei e e' um filme importante. Nao o amei porque e' dificil ficar enamorado pela tragedia alheia mesma que seja por momentos comica.

Mas para dar estrelas (de 0 a 5) tenho que ter contrato, isso sao segredos profissionais.
 
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