01 setembro 2006

 

A dureza dos números


No seguimento da longa e interessante discussão que se vem tendo num texto anterior sobre a Cuba de Fidel, e porque a argumentação intuitiva não é política, essa tem de se basear em factos, ficam algumas estatísticas para contrariar os argumentos:

"Existe um problema muito mais profundo, que é a visão igualitária do regime comunista, onde não há um estímulo ao progresso individual e, como consequência, não há progresso colectivo."

ou então:

"O regime actual, foi implantado a custo de muito sofrimento e que não trouxe melhorias para os cubanos. Antes, Cuba era conhecida como a "pérola das antilhas", uma das economias mais fortes da América Latina. Abusos, obviamente que haviam, mas muito menores do que os de hoje, aos quais muitos fecham os olhos..."

Ora, se fizermos uma busca rápida pelos dados disponíveis sobre Cuba, e se pegarmos, por exemplo, no Indíce de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas e fizermos uma pequena comparação entre os dados de Cuba, na posição 52 do IDH e o México, na posição 53, chegamos a algumas conclusões interessantes, sobretudo se pensarmos que são dois países da América Latina, um desmesuradamente maior que o outro, ambos terrivelmente atrasados no período após a II Guerra Mundial (só para estabelecer um período de comparação), um com uma economia capitalista fortemente apoiada pelo gigante EUA, e outro com um modelo socialista com um embargo há décadas (que se fosse assim tão irrisório, seria de questionar porque é que a ONU aprovou a resolução A/RES/47/19 em 1992, apelando ao levantamento do embargo, e o tem reafirmado todos os anos desde então).

O problema destas discussões é admitir que o modelo cubano até funciona. Não tem a mesma eficiência do capitalismo na criação de riqueza, mas tem a capacidade de criação de igualdade, que o capitalismo não tem.
Dizer que os cubanos estavam melhor com Batista do que com Castro é dar um tiro no pé e perder a credibilidade argumentativa. É atirar areia para os olhos, que a dureza dos números rapidamente limpa. Cuba desenvolve-se, e a opção, que só os cubanos podem validar, de prescindir de algumas liberdades individuais em prol do progresso colectivo e igualitário (progresso que se pode dar em colectivo, Cuba é a prova; no entanto nunca foi provado esse dogma da mão invisível - pelo contrário, os dados estão a negá-lo), é a grande questão política desta fase de transição do poder em Cuba. E o que pode custar a admitir ao Ocidente é que os Cubanos possam preferir manter o sistema, apesar do resto do mundo...

E vejamos então quem é que tem uma "visão é puramente ideológica" e quem é que quer "adaptar a realidade ao teu modo de pensar". Dados, vamos a eles.

Comments:
Caro Mbeki, lá está: "...a opção, que só os cubanos podem validar, de prescindir de algumas liberdades individuais em prol do progresso colectivo..." Opção?!? Só se for a opção de obedecer e não fazer ondas... Cá em Portugal, no tempo do outro doido, também tínhamos essa "opção". Era "optar" ou dar uma voltinha até à António Maria Cardoso com a direito a estadia com pensão completa por tempo indeterminado...
 
É uma questão de ter perspectiva histórica. Todos os regimes autoritários foram, mais cedo ou mais tarde, revistos ou eliminados. Aconteceu com o Antigo Regime e as Monarquias Absolutistas, aconteceu com Napoleão, com os Czares, com a URSS, com Espanha, com a Alemanha Nazi, com a Itália Fascista, com Portugal e o Estado Novo, etc. Se quiseres, chama-lhe determinismo histórico, mas o que se vê é que nunca houve repressão suficiente para impedir uma mudança. Para atrasar certamente, para impedir não. Não aconteceu no resto do mundo, não acontecerá em Cuba. Se os cubanos quiserem a mudança, ela acontecerá (repito, é essa a questão em cima da mesa). A política não pode ser pensada no imediatismo dos 4 anos entre eleições, a evolução das sociedades é algo que se movimenta numa outra escala. O mundo não é instantâneo.
 
WORLD: INFANT MORTALITY
(DEATHS PER 1,000 LIVE BIRTHS)

COUNTRY 1957 -- 1990-95

JAPAN 40 -- 4
FINLAND 28 -- 5
BELGIUM 36 -- 6
SPAIN 53 -- 7
ITALY 50 -- 8
ISRAEL 39 -- 9
GREECE 44 -- 10
PORTUGAL 88 -- 10
CUBA 32 -- 12
MALAYSIA 76 -- 13

SOURCE: UNITED NATIONS.



LATIN AMERICA: LITERACY RATES (A)
(PERCENT)

(1995 Data is the latest available)

Country 1950-53 -- 1995


ARGENTINA 87 -- 96
CUBA 76 -- 96
CHILE 81 -- 95
COSTA RICA 79 -- 95
PARAGUAY 69 -- 82
COLOMBIA 69 -- 91
PANAMA 72 -- 91
ECUADOR 56 -- 90
BRAZIL 49 -- 90
DOMINICAN REPUBLIC 43 -- 82
EL SALVADOR 42 -- 72
GUATEMALA 30 -- 56
HAITI 11 -- 45

(A) Data for 1950-53 are age 10 and over. Data for 1995 are age 15 and over, reflecting a change in common usage over this period.
(B) 1947 data, the latest available, are for age 14 and over.

SOURCE: UNITED NATIONS.


LATIN AMERICA: PER CAPITA FOOD CONSUMPTION
(CALORIES PER DAY)

(1995 Data is the latest available)
1954-57 -- 1995

MEXICO 2420 -- 3135
ARGENTINA 3100 -- 3110
BRAZIL 2540 -- 2834
URUGUAY 2960 -- 2826
CHILE 2330 -- 2769
COLOMBIA 2050 -- 2758
PARAGUAY 2690 -- 2560
VENEZUELA 1960 -- 2442
ECUADOR 2130 -- 2436
HONDURAS 2260 -- 2359
CUBA 2730 (A)-- 2291

(A) FOR 1948-49.

SOURCE: UN FAO FOOD BALANCE SHEETS
 
Ui. Isto assim até dá gosto de comer e ler por mais...
 
Desta vez é mesmo só para desejar a todos um óptimo fim-de-semana.

Saudações alentejanas.
 
Ou por outra, eu diria que estes dados são de morrer...
 
Para te dar mais prazeres bokassa.

Dados do CIA factbook que estao actualizados para este milenio.

Infant mortality rate
CUBA - 6.2 por 1000
PORTUGAL - 4.9 por 1000

Literacy
CUBA - 97%
PORTUGAL - 93%

Ja as calorias per capita parece-me criterio perigoso, ate porque entao os ocidentais obesos se tornam ideal de saude e desenvolvimento.

Uma nutricao adequada reflecte-se afinal na esperanca media de vida.
CUBA - 77 anos
PORTUGAL - 77 anos

Falar em numeros nao simplifica o dialogo, tanto que os numeros do viajante me parecem muito duvidosos, ate a CIA discorda. Os numeros dizem sempre menos do que se faz crer. Nao ha objectividades faceis que dispensam argumento e debate ideologico.
 
Concordo que os números não simplificam o diálogo, porque há que compreende-los e enquadrá-los, mas servem sobretudo para objectivar a discussão, e evitar os argumentos intuitivos como o da "economia mais forte". A discussão política é sobre o mundo real, não sobre o filosófico.

De qualquer modo, a resposta do Viajante continua a não desvendar esse mistério do IDH entre México e Cuba (ou sequer porque é que Cuba é posta no grupo dos países com médio desenvolvimento pela ONU), já que os cubanos "estavam melhor com o Baptista do que com o Castro". E mesmo nas estatísticas apresentadas pelo Viajante, é preciso ter em conta o PIB (sobretudo o per capita com PPP) para se fazerem comparações justas. Daí a utilização do IDH, e não de estatísticas avulsas e desenquadradas.
 
Então cá vamos ao PIB(per capita):

País 1958(1) -- 2005(2)
Cuba 356 -- 3.485
Chile 360 -- 5.870
Costa Rica 230 -- 4.590
Espanha 180 -- 25.360
México 284 -- 7.310


(1) U.N. 1964 estimates based on PPP exchanges rates.

(2) World Development Indicators database, World Bank, 1 July 2006
 
E então, qual é o argumento? De facto, números sem discussão não levam longe.

E já agora, onde é que arranjaste estes números? Andei à procura deles e não os encontrei.
 
Que novidade tao grande esta do PIB! Nao veras ninguem a tentar refutar essas relacoes ordinais, mas talvez mereca consider o quociente GINI antes de cantar as glorias do crescimento economico, ao facturar impactos ecologicos sobre esse pacote de dolares tao pouco transparentes.
 
"A dureza dos números"

"porque a argumentação intuitiva não é política, essa tem de se basear em factos"

"É atirar areia para os olhos, que a dureza dos números rapidamente limpa"

"dados, vamos a eles"

"é preciso ter em conta o PIB (sobretudo o per capita com PPP) para se fazerem comparações justas"

"Que novidade tao grande esta do PIB! Nao veras ninguem a tentar refutar essas relacoes ordinais"

se isto não é adaptar a realidade ao modo de pensar...
 
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Ó viajante, argumenta lá. Constrói lá qualquer coisa com os dados que fomos lançando por aqui, porque há muito tempo que não dizes nada. Explica lá como é que os dados que fomos (ambos) lançando aqui justificam o teu ponto de vista, para que se possa continuar a discussão. Eu continuo a não ver onde é que estes dados contrariam qualquer coisa do que tenha dito, nem onde é que está a adaptação da realidade ao modo de pensar. Argumenta lá, porque eu não estou a perceber.
 
Não querendo entrar na discussão a meio, e não tendo tempo de fazer a retrospectiva completa, gostava de deixar alguns comentários:

- Como bem apontado pelo amilcar, o PIB per capita á uma média. Especialmente nos países da América Latina, é fundamental olhar para medidas de desigualdade como o índice de Gini. Se há meia dúzia de famílias deterem grande parte da riqueza, o resto pode muito bem viver com menos que comparando com outros países mais igualitários.

- PPP é enganador. Este é apenas calculado para alguns países e por aproximação se chega a outros. Não sei a ficha técnica deste caso concreto, mas chamo a atenção para o caso especial de Cuba já que difere da maior parte dos países circundantes. Garanem-me que a gratuitidade de educação e saúde é repercutida no índice? Tenho as minhas dúvidas.

- A medição é muitas vezes enfermada por preconceitos políticos. Creio que foi a Forbes que colocou o Fidel como umas das pessoas mais ricas do mundo. Chegou a este resultados incluindo as riquezas do Estado Cubano por considerarem Fidel um ditador e por conseguinte dono dessas riquezas.
 
PS - Para quem não saiba PPP, Purchasing Power Parity tenta tornar a unidade de medida do PIB de cada país em unidades comparáveis entre diferentes países, tendo em conta preços de diferentes produtos e serviços. Em suma comparar o poder de compra desses países.
 
Recomendo a leitura atenta deste documento que compara a Cuba Pré-Castro à actual.

E já agora se puderem, vejam o filme "Havana Cidade Perdida" que vai estrear brevemente nas salas portuguesas.
 
Recomendo a leitura atenta deste documento que compara a Cuba Pré-Castro à actual.

E já agora se puderem, vejam o filme "Havana Cidade Perdida" que vai estrear brevemente nas salas portuguesas.
 
Assim também te podia recomendar este artigo, ou artigos do Granma. Mas a vantagem de estarmos aqui a arremessar dados de um lado para o outro é que podemos ser nós a fazer a discussão, e não procurar a informação já mastigada por um ou outro lado. Aliás, lá pelos inícios desta discussão falou-se disso, da importância de não engolir nem o que vem de dentro de Cuba, nem o que vem dos anti-cubanos. E, como pequeno aparte, irrelevante mas curioso, não escolheste propriamente a Universidade mais progressista dos EUA...Basta lembrar que o "Inteligent Design" anda à solta nesse estado, e que o Bush foi lá governador. Mas isto são pormenores frágeis, o que interessa é discutir os dados, e isso ainda não fizeste. Não deste uma explicação para a posição no IDH de Cuba, não disseste em que é que os dados contrariam o que se foi dizendo por aqui, ou onde é que estamos a distorcer a realidade por razões ideológicas.
 
Caro Viajante, a leitura atenta do artigo que sugeres nao te protege de argumentos, antes desnuda as fragilidades da tese que ve Cuba como exemplo de progresso pre-1959.

Ha dois argumentos desse mau artigo que me parecem ilustrar o perigo de brincar com numeros sem reflexao critica.

1. Cuba tinha um sistema de saude acima da media, pre-1959, melhor no ranking mundial do que tem hoje. A evidencia oferecida e' uma UNICA publicacao da ONU de 1957. Qualquer historiador de minimo bom senso fara notar que em 1957 a descolonizacao dos imperios europeus estava ainda em curso, e os valores que colocam a belgica e portugal atras de cuba sao a influencia da africa colonizada. Da mesma forma, se Cuba foi 13 e e' hoje 25 nos rankings, decerto deve-se notar que os numero de paises no mundo (e nas estatisticas da ONU) foram em muito aumentados.

Segundo ponto e' analisar os maus resultados da economia cubana com referencia as exportacoes, e em comparacao com o Chile. Esquece-se o embargo americano a Cuba? Ou sera que esse tb e' culpa de Fidel? Nao se faz tb nota que a imagem seria bem diferente se se tivesse escolhido qualquer outro pais da America Latina, sobretudo outro com geografia e dimensao comparaveis.

Os numeros nao podem ser capote para esconder desonestidade. Acabe-se com esta parvoice!
 
Continuo a não perceber essa tua questão com os números. Eles são uma base de discussão, não um fim em si. E são um instrumento poderoso, mas que carece de discusão e análise. Mas para mim, essenciais em qualquer discussão política.
 
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