21 março 2006
Propriedade intelectual da tortura

Mais interessante e consequente neste episódio é tratar-se de mais uma evidência de que a “guerra contra o terrorismo” assenta no terrorismo. É com o terror da tortura que a justificação falaciosa para o pânico global, de um islamismo omnipresente e expansionista se fabrica. E depois vemos os Jack Straws e as Condoleeza Rices deste mundo imaculados, com um sorrir de dentes alvos. Estes, quando interrogados sobre as origens das informações que perfazem os seus dossiers de guerra, não comentam ou respondem que “não instigam a tortura”. Com o re-frasear sofista da questão - não instigar não significa que se rejeite ou desaprove - julgam-se ilibados do crime.
A última táctica de intimidação a que o governo britânico recorre para calar Murray, é de reclamar todos os memorandos a que este teve acesso, copiou, e agora quer publicar em livro, como propriedade intelectual da Coroa Britânica. Estabelecendo uma analogia entre o funcionário público e um programador de software, o governo britânico argumenta que o saber adquirido na função diplomática deve pagar direitos de propriedade (chorudos e proibitivos) pré-publicação. Assim se pretende intimidar a editora do livro, o que parece estar a resultar numa dose substancial de auto-censura sobre a edição desta história. Trata-se da propriedade intelectual sobre o conhecimento da tortura, a privatização da verdade, porque a mentira não paga alfândega e compra-se e vende-se barata e sem taxas.
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