15 dezembro 2005

 

Heresia canónica


Num post recente, o blog Blasfémias não poupa veneno para os países desenvolvidos e seus políticos, de Bush ao Fórum Social, dados como responsáveis pela miséria do Terceiro mundo. A blasfémia aponta como causa deste mal a recusa em liberalizar os mercados agrícolas. Não sei se é do conhecimento do Blasfémias, mas nesta heresia estão na suspeita companhia do G8. Na sua recente reunião em Gleneagles na Escócia, foi pomposamente anunciado que a salvação do Terceiro Mundo estava para breve com o advento do perdão da dívida e da liberalização do comércio mundial – “make poverty history.”

A crença na solução da pobreza mundial pela liberalização do comércio agrícola, a que o Blasfémias faz procissão de fé, é extraída do evangelho dos países desenvolvidos. É assente na imagem do Norte industrial face ao Sul agrícola, uma ideia-relíquia do século XIX. No séc. XX os países industrializados tornaram-se os principais produtores de algumas das mercadorias essenciais. Em qualquer supermercado, só os produtos exóticos tem origens tropicais, o resto vem do Norte. O principal promotor da liberalização dos mercados agrícolas é a administração Americana. Os EUA sobre-produzem bens de cultura extensiva, nomeadamente cereais. Todos os anos os EUA (e a UE) destroem toneladas de alimentos ou entregam-nos para ajuda humanitária com o fim de inflacionar os preços internacionais dos bens.

O Blasfémias elenca o “Brasil, Argentina, Chile, Tanzânia, Índia, Tailândia” como liderando o esforço de liberalização, como as vozes do Terceiro Mundo. Contudo, estas são economias emergentes e não indigentes, estas almejam competir com os EUA/UE no mercado internacional. Para o resto do Terceiro Mundo, a liberalização é vista com receio justificado. O impacto de competir com os gigantes e a avalanche de bens produzidos a baixo custo, pode destruir a frágil economia agrícola destes países, que sem alternativas de emprego destina milhões para a miséria da auto-subsistência.

O Blasfémias falha em notar o que de facto está em debate. A bloquear a liberalização do comércio, é controversa a definição das regras para a competição internacional, nomeadamente o que se entende por subsídios. Os países desenvolvidos podem ofertar a sua agricultura subsídios camuflados, por exemplo financiando investigação em transgénicos ou fornecendo combustível a baixo custo. Além da agricultura, o Terceiro Mundo quer trocar a liberalização dos mercados agrícolas com vantagens para os EUA/EU, com medidas semelhantes para os mercados industriais, que por exemplo penalizam os têxteis da Itália, Espanha e Portugal. São estes os pontos que arrastam a resolução dos debates.

Os mercados “livres” não são panaceia universal. A liberalização dos mercados não é oferta dos ricos aos pobres para os salvar do seu sub-desenvolvimento. Estas medidas favorecem os países ricos sobre os pobres, o Blasfémias vê o “mundo de pernas para o ar.”

Comments:
Às vezes o probelma não é ver o “mundo de pernas para o ar”, às vezas o problema é querer ver o “mundo de pernas para o ar”.
De certeza que o "Blasfémio" não trabalha para um patrão arrogante que o manda trabalhar 1000 e receber 100, nem deve ter um trabalho precário em que em que pode em segundos ficar sem o mesmo, nem deve contar os trocos quando é para pagar os livros da escola aos filhos...
Para ele a 'liberdade' para ter o direito explorar é superior à liberdade de podermos comer o que produzirmos e não termos de lamber as botas ao patrão para subrevivermos.

1 abraço
 
deixei dois comentários no renas ao sr. CAA. no 1º chamou-me de bloquista e de quejandos. no 2º de gay.
Ora, não sou nem um, nem outro.
Isso diz tudo da compreensão literária, semântica e contextual desses senhores.
 
Até a ajuda "humanitária" serve para dar subsídios. Afinal, é preciso dar destino aos excedentes muitas vezes transgénicos.

O mesmo se passa com a ajuda ao desenvolvimento. Os países beneméritos "oferece" regularmente produtos ou serviços (estes últimos agora mais na moda) aos países "em desenvolvimento".

E que dizer das privatizações das "public utilities" ´(água, electricidade,...) na América Latina com aumentos brutais dos preços para os consumidores e produtores desses países?
 
A conclusao deste debate e' que "mercados livres" nao os ha'! O desenvolvimento tecnologico e financeiro de um pais sao os primeiros subsidios para tornar o comercio injusto. Nao ha' concorrencia perfeita, so ha' economia politica.
 
amigo cabral, o james deixou na minha caixa um textozinho que penso ser mais dedicado a si do que a mim...
 
O tema dava para escrever um livro. Mas o certo é que as multinacionais ou transnacionais é que se vão safando nesta globalização. O que se globaliza, afinal, é a pobreza para a grande maioria, seja do Sul, seja do Norte. Pois que no Sul imperam também as transnacionais, suportadas por governos corruptos, etc., etc..
 
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