17 fevereiro 2005
A ciência do arrefecimento global
No Guardian desta semana, o colunista George Monbiot notou com indignação a recusa do gigante económico Americano em subscrever o protocolo de Quioto. Monbiot ignora as fragilidades do “histórico” protocolo, que não prevê sancções e cujas metas estão muito abaixo do necessário para travar o actual descalabro climático. A denúncia do parco conteúdo de Quioto pode de facto parecer menor quando a maior economia do mundo recusa-se a dar ate este passo meramente simbólico.
A birra Americana tem muito de simbólico. O Grande Estado Americano, encabeçando a cruzada contra o tenebroso terrorismo global, nao permite ser forçado a assinar tratados, menos ainda a respeitar convenções, e jamais a ouvir o anárquico “mundo”. O centro Americano é neste discurso chauvinista, a confiante origem do sereno progresso e da segurança global.
A voz que se ouve na America é a daqueles que Monbiot identifica como os RP, os “loyalists” da Exxon Mobil. Monbiot indigna-se que estes deturpem a verdade de um debate científico resolvido – as consequências bíblicas do actual modelo de desenvolvimento económico. A indignação de Monbiot é também a sua surpresa, e ambas assentam na crença de que a ciência deve ser uma entidade purificada dos combates sociais. Mas crença raramente explica adequadamente a realidade. Os RPs da Exxon Mobil são certamente doutorados de Harvard, Princeton ou Stanford, são provavelmente competentes cientistas, com artigos publicados na Science, e tem para apoiar os seus argumentos boa ciência estatística. Os RPs da Exxon Mobil não mentem, nem a ciência que usam mente.
Debates em ciência não se resolvem com verdade, são provas de resistência onde “arte” do cientista e a política da sua comunidade são tão importantes como o arcano mundo real que os cientistas oscultam. O último a ficar de pé, aquele com mais aliados, vence. E neste, apesar de decrépito, capitalismo para lutar são precisas baterias de financiamento e poder económico. A ciência do século XXI é a do século XX, industrial e militar, social até ao tutano.
Não há nada de acientífico nesta “má ciência”, tem evidências, hipóteses, argumentos e conclusões. Esta “má ciência” também é conhecimento, a par com aquela que acusa a destruição do nosso ecosistema. É por isso que não se pode esperar que os debates científicos se resolvam por si para se decidir. Conhecimento informa mas não julga. A ciência não pode substituir a política. Não foi a “má ciência” da Exxon Mobil que fracassou Quioto, foi o capitalismo Americano que tomou a decisão (e que conjurou a ciência que a informa).
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